06.11.09
Eis a questão
Contar histórias é tarefa fácil, certo?
Um bom conto tem moral, questões, vivência e respostas. Algo com que o ouvinte se identifique, para que lembre-se da crônica como algo que lhe mostrou e lhe, de uma forma ou de outra, aconselhou.
Ouvir histórias é uma ótima maneira de reconhecer-se. Descobrir com qual personagem e quais situações cada um se traduz, se vê.
Não que precisemos de alguém, ou ainda mais de uma história inteira, para nos caracterizarmos… Fazemos isso sem pensar, desde sempre.
Criar, modificar, consolidar e reconhecer seu próprio perfil, sua própria personalidade. Sonho de consumo de vários.
Para esses que não sabem quem são, as histórias são boas. Auto-ajuda gratúita.
E para quem se conhece? Para quem sabe quem é, o que quer, quando quer…
Como fica o sujeito que lembra de cor e salteado suas características, suas qualidade e defeitos, sabe quando usa máscaras e quando as tira, se encontra facilmente no reflexo do espelho… Com qual conto essa pessoa se identifica?
Conhecer-se pode ser o verdadeiro sentido da vida. Quem já sabe tudo sobre si mesmo não tem mais o que viver, então?
O que fazer quando você descobre que não há nada dentro de si que pode lhe surpreender?
Nessa hora, contar histórias pode ser uma boa saída.
05.27.09
O garoto de orelhas de raposa (Parte 3)
Heleno tinha dois olhos de gente, uma boca de gente, um nariz de gente, um corpo de gente. No entanto, algo o diferenciava ainda mais de seus coleguinhas de segunda série do E.M.E.F. Tibério Torres: Heleno tinha duas orelhas, mas de raposa. Diz a lenda que isso é fruto do castigo herdado de sua mãe, uma mulher com jeitão bem carrancudo para com as outras de sua vizinhança. Ou então vá que ele tenha sido confundido na maternidade, ou o pai tenha traído a esposa com uma raposa, não sei.
A origem das orelhas de raposa é o que menos importa. O que mais importa é o caso do garoto das orelhas de raposa. Heleno vivia a se esconder, fugir dos comentários maldosos dos não tão caros estudantes – exceto de Rosa e sua palavra amiga. Nem com os professores ele deixava de ser motivo de chacota. Começou a deixar o cabeço crescer, mas não adiantava a tentar camuflar as orelhas verticais e felpudas. Era difícil passar o dia sem ser notado por alguém na rua ou encarado como estranho para as pessoas que atravessavam seu olhar. Usava boné, chapéu, mal podia escutar sua banda de rock preferida.
Era inconveniente o jeito que ele era tratado por todos. Não sabia como reparar esse erro da qual nem era erro, apenas uma distinção simples & biológica. Heleno teve uma ideia. Uma horrível ideia: cortar as orelhas. E pronto, ele nunca mais ouviu os comentários alheios. Mas também deixou de ouvir o afeto da mãe, a palavra amiga de Rosa e sua banda de rock preferida. Importou-se tanto com os outros que já nem tem mais com o que se importar. Você já foi Heleno? :/
05.19.09
Sarah & Psicopatia
by: Sarah
Adoro temas avulsos e sonhos que me fazer perder o sono. Adoro sorvete, chocolate quente e uvas. Adoro cheirar o perfume doce de minha irmã mais nova e de imitar as pessoas. Aliás, sou uma eterna mímica. Fale no seu tom que eu falo no seu tom. Diga com intensidade e também responderei com a mesma sinergia. Gesticule, olhe invocadamente/descaradamente/irritantemente e te acompanharei no olhar. Eu sou assim. Eu vivo assim: copiando o mundo ao meu redor. Pego bordões de amigos e aplico em outras rodas de convivência. Mas não me veja como papagaio, pois não respondo igual a você, mas o que você quer.
Não me preocupo com sua companhia, nem me importo com suas preferências. Apenas gosto de desafios, colocar as pessoas em seus limites e vê-las descabeladas, emputecidas, aborrecidas e chorosas. Adoro o sofrimento alheio. Envolvo meus próximos com as palavras mais amigáveis, grito sonhos, sussurro carinhos e o convencimento torna-se fácil aos mais inexperientes. Coitados daqueles que passaram em minha vida. Rio enquanto choram. Compaixão? Vá se fuder com essa porra de compaixão! Estou muito mais interessada em observá-los. Entenda-me, Edgar, foi tudo proposital. Faz parte do meu show querer a dor e a agonia alheia.
Burro foi você de acreditar em mim tão fácil. Sexo? Só carne, só corpo. Não dá pra gozar com um homem tão estúpido como você. Fingi, fingi mesmo. Mas não queira colocar a culpa toda em mim, nããão. Culpa sua! De sua fraqueza! De você não saber valorizar a Nanda. Agora se fudeu. Dei o ombro amigo a ela e, veja só, conheceu o Rick. Muito melhor do que esse boyzinho aqui à minha frente. O quê? Pensava que eu gostava mesmo de você? Fiz tudo para te agradar, palerma. Agora você tá aí, na minha mão. Que pena que não tem mais o papaizinho pra te socorrer. Parece até aqueles fedelhos sem saber onde colocar as mãos. Isso! Chore! Seja esse maricas que sempre deixou esconder aos outros. Burro.
Bye bye, querido. Você vai partir dessa pra melhor. Reze, porque te encontro no inferno. (pausa) Agora é só guardar essa arma. Como vou tirar esse corpo? O Rafa não arrombou a porta ainda, desse jeito, quem vai pensar que o Edgar morreu num assalto no próprio apê? Vou indo. Tenho encontro com outro ricaço. Edgar, se pudesse me ouvir, eu até que gostava de trepar contigo.
05.12.09
Paradoxo
É possível mudar alguém?
É possível ser mudado?
Perguntas difíceis…
Gosta-se de alguém pelas suas qualidades, admira-se por suas virtudes, seus comportamentos, sua personalidade.
Ama-se alguém pelos seus defeitos.
O amor existe depois de se tentar corrigir esses defeitos?
Seriam defeitos assim tão grandes, gritantes, para se tentar corrigir? O que é, então, correção?
Mesmo que se consiga o milagre, depois, a pessoa não seria mais a mesma, certo? O amor ainda existiria?
Perguntas mais difíceis ainda…
05.05.09
O Aviso
“Quem avisa, amigo é” já dizia o grande sábio.
Maldito sábio… Por que foi morrer antes da chegada da internet?!
Recebi um e-mail ontem e o li por pura curiosidade.
Já no início dizia “Horóscopo, saiba sua sorte de amanhã!”… Era tentador demais. Quem não gostaria de saber como o dia de amanhã será? O que me influenciará e a quem eu devo dar ou deixar de dar atenção?
Boa proposta, me convenceu!
Abro o e-mail e tudo já começa bem. BAM! “Maldito Bill Gates e seus sons que tanto me assustam…” só perde para a buzina de navio do ICQ, mas onde eu estava? Ah sim, no e-mail…
BAM! Virús encontrado. Eu torcia para os romanos, juro. Malditos troianos e seus cavalos…
Deixei aquilo de lado, minha sorte, meu dia seguinte, tudo estava ali de frente para mim.
“Amanhã poderá não ser um dia bom para você, caro usuário…”, me alertava.
“O ciclo que seu planeta natal Mercúrio faz com sua estrela mãe não é dos mais harmoniosos. Talvez seja bom prevenir-se contra males físicos ou psicológicos que venham de terceiros. Cabe a precaução e a cautela para com ameaças. Não acredite em tudo o que lhe dizem.”
Fiquei em choque.
O dia seguinte parecia o mesmo, já que não preguei os olhos. Aflito, minha noite foi bombardeada de pensamentos sanguinários e visões apocalípticas.
Eu seria atropelado por um ônibus a caminho da padaria?
Poderia me engasgar com o lanche da tarde? E ser demitido por isso?
Talvez morresse voltando para casa, num ataque terrorista.
Viajei e voltei. Quando percebi, o despertador tocava e meu horário chegara.
Não levantei, me fingi de surdo e depois de doente para mim mesmo. Nada mais seguro do que minha cama.
Hoje, estou aqui escrevendo porque só agora entendo o horóscopo…
Descobri que algum sortudo foi vencedor da mega-sena na lotérica aqui perto de casa, ao fazer aquele joguinho que eu fazia todo dia a caminho da padaria…
No trabalho, o cara da sala ao lado foi promovido a vice-presidente da companhia, já que eu não estava lá para ser congratulado pelos relatórios.
Vi no jornal que, lá pelas 18h, na rua em que eu passo sempre quando volto do trabalho, uma moça loira caiu e se machucou. O rapaz que a socorreu foi declarado herói da cidade e ainda está noivo da rapariga… Ela se chama Nicole Kidman.
Maldito João Bidu…
04.27.09
Reflexo
Acordo já de cara com ele… Barba por fazer, uma ou outra espinha, cara de sono, hálito não sinto. Toda manhã é a mesma coisa. Levanta e vem me ver. Chega pertinho, às vezes, me olha nos olhos, me encosta na parede… Seu nome não sei.
Pede minha opinião sempre que vai sair… A roupa está boa, pode ir trabalhar despreocupado.
Tem dias que vem de terno, outros de blusão… Já vi de pijamas e pelado, então… Admito que não consigo resistir e dou uma olhada quando ele vira pra cá, pra lá, me mostra um pneuzinho e eu logo tento mentir.
Mentir é algo que não consigo, tento ser sincero ao máximo, sempre! Se me perguntar, direi que sim, a roupa está amassada. Sim, você fez mal sua barba. Sim, os grisalhos chegaram mais cedo e aqueles ainda castanhos que já caíram, não vão mais nascer.
Elogio também, quando merece. Afinal, numa relação como essa é preciso ver as coisas pelos dois lados.
Que bela escolha de roupas. O sapato está perfeito! Seus olhos são lindos!
Ele cuida de mim, também. Mexe comigo, me faz um carinho de vez em quando, procura o melhor lugar para mim.
Mas sou duro quando é necessário. Faço, não só ele, mas todos, enxergarem as verdades que residem dentro de si mesmos, querendo eles ou não.
Mostro como seus rostos estampam o aborrecimento. O sofrimento. O arrependimento. O amor. A tristeza. Tudo o que tentam esconder de mim e dos próprios olhos… Nenhum truque funciona comigo.
Não sou mágico também, só mostro o que vejo. Agüento caretas, presencio risos, tento acudir os choros, mas nunca pude secar uma única lágrima dele.
Em relação a isso me sinto um inútil.
Em compensação, é para mim que ele declama os ensaios de suas reuniões. Eu sou o único que lhe dou atenção quando nem ele parece acreditar em si mesmo. Mostro o quão forte ele realmente é, sem exageros.
Se eu fosse exagerado, estaria no parque de diversões.
Jamais vi meu rosto, ele está sempre coberto por um véu de brilhos infinitos. Não sei sorrir sozinho, chorar sozinho, me vestir sozinho…
Tem vezes que eu até me confundo com ele, por alguns segundos penso que posso ser humano.
Sei que, às vezes, ele também acha que sou.
Quando confia, só a mim, seus maiores segredos, seus medos, suas felicidades.
Acordo já de cara com ele, vendo as verdades.
Meu reflexo é o seu presente… Seu reflexo é o meu.
Obrigado por me polir de vez em quando, de me limpar e evitar os arranhões. Tenho de agradecer por tudo, afinal, sou um espelho sincero.