09.04.09
Um rapaz que era hipócrita; e tornou-se incrível; e voltou a ser hipócrita
Enviado em Hanna-Barbera às 10:43 por cntrld
Se existe alguém mais falso, hipócrita e sem sentimentos que o mundo já pôde conhecer, o nome dessa pessoa provavelmente será o meu. Egoísta, antipático, calculista & sarcástico. Não tem como me definir melhor. A questão é que não é difícil eu sair de casa e, durante qualquer trajeto que eu o faça, pelo menos, três pessoas aleatoriamente não me reconheçam. Cruzam olhares de afeto, vem me cumprimentar em minha direção, beijam-me e desejam bênçãos e presentes no meu dia-a-dia. É, sou popular no bairro. Tudo por causa de favores.
Admito que há várias mulheres que me almejam como genros, já que sempre escutam versões exemplares sobre minha pessoa. Um computador doado, uma palavra amiga, um amor recuperado, uma inclusão social, uma bolsa de estudos, um emprego. Sempre o narrador-personagem é envolvido em alguma boa história de moral. E isso é um fardo, tenho uma reputação a zelar. Aliás, uma das boas. E não me canso de ajudar os outros, nem que seja preciso mentir. Isso mesmo, falsear para agradar os outros. Ah, e sou uma pessoa que desejo as melhores companhias do meu lado. Não quero uns quaisquer próximos à minha imagem, ao meu passado, quero ser lembrado por pessoas tão boas ou melhores do que eu. Não é difícil conquistar minha amizade, mas prefiro estar sempre ao lado de gente que admiro.
Percebi que eu era uma pessoa grande porque os outros me viam assim, e não gostaria de decepcioná-los. Um dia, conheci uma garota que necessitava de um auxílio afetivo. Seria um desafio interessante ajudá-la. Tentei propiciá-la a todos os momentos mais inimagináveis para que ela se sentisse única, exclusiva, enfim, especial. Lembra-se que eu minto? Só dizendo o quanto ela era especial, mesmo que eu desacreditasse piamente nessa característica dela, pra que a moça recuperasse sua autoestima. Foi o meu objetivo. O calculismo nas linhas de ação. Tudo programado para ela ser uma pessoa feliz, e, portanto, melhor. Assim, digna de minha admiração.
A magia e o lúdico em todo o processo foram bastante interessantes e inegáveis. Precisei suscitar toda uma estrutura social para que ela estivesse feliz. Porém, sempre tinha algo nela que a atormentava. A meta exigia que eu elaborasse situações ainda maiores para ela respirar amor. E a cada dia, percebia que ela se entregava um pouco mais a mim, abria o coração de forma que jamais tivera feito até com outro rapaz. Algo comum para mim (as pessoas aleatórias que me querem bem, lembra-se?), contudo, deduzo que tenha sido inédito para ela. Via-me como um cara incrível.
Você não sabe o que é se encher de heroísmo por vãs palavras de uma pessoa. É acima de orgulho. É compromisso com a pessoa de expectativas. Pela primeira vez toquei num coração pulsante. Logo deixei-me tomar por outrém. Altruísta, simpático, sensível & sarcático. Eu incrível. Graças à visão dela. Impulsionava-me a admiração dela. E era agradável poder lhe fazer bem. Exemplifico isso a partir dum eco. Creditei que a reciprocidade tornaria-se natural. Repetir o quanto ela é especial – mesmo que da boca pra fora -, faria com que ela realmente fosse especial. Que meu eco funcionasse, ela voltasse a ter autoestima, mais amadurecida nas relações. Ela especial.
Sendo que tinha coerência até mesmo em minhas mentiras para que ela fosse feliz, não estava me iludindo. Ela se tornou especial. Aí sim, passei a admirá-la. Porém, ela cometeu uma situação que não condizia com o ‘jeito especial’ que ela alcançara graduativamente. É como se ela tivesse recuado com todos meus, quiçá, nossos princípios e valores. E, caro leitor, você não sabe o que é entristecer-se. A magia findara. E como lhe disse, sou incapaz de acompanhar pessoas que não admiro. Logo o castelinho de areia tombou. Aprendizagem esquecida. A relação esfriou. Não que eu não goste dela, mas, não a admiro mais. Apenas a respeito como tenho o apreço idem por todas as pessoas comuns que me veem na rua, beijam-me e abençoam o meu dia.
Não tenho decepções, é uma decorrência racional o afastamento de nós. Questionei muito o que faria com que uma pessoa ao, enfim, sentir-se feliz, recuasse após. Talvez meu desafio que por pouco tempo foi atingido, era somente algo temporário. Talvez ela nunca tenha sido especial. E se meus dizeres não adiantaram, por que os dela adiantariam? Talvez eu nunca tenha sido incrível. Desisto, descanso. Voltei a ser eu mesmo, entretanto, com mais convicção de que posso errar. É, cessei de bancar o santinho, porque todo mundo sabe quem eu sou. E me aceitam da maneira que sou. Egoísta, antipático, calculista & sarcástico.