09.03.09
Lado a lado: Saga de Pedestres
Enviado em Hanna-Barbera tagged andar, casal, mulher, passos, rua às 20:21 por cntrld
Saía do teatro. Dez e cinquenta da noite. Mal aguentara a carga horária de Montagem de Espetáculo mais a aula única de Gestão de Equipe. Cruzei a porta, a primeira esquina e avistei uma garota. Reparei no cotovelo, já falei que tenho uma tara por cotovelos? Adivinhei uns vinte e quatro anos. Cotovelo magro, pouco avermelhado e um início de rugas. É, vinte e quatro anos. Cabelos longos meio ondulados, meio grossos. Juba. Passos impacientes. Com as avenidas praticamente vazias e solitárias até minha residência – uns quinze minutos de trajeto -, acabei por aceitar a companhia dela.
Possíveis ladrões. Temo sofrer um assalto logo pela noite. Não moro num dos melhores lugares da cidade, perigo é o que não falta. Percorro metros e a alcanço. Olhamo-nos. Pele clara, cores escuras nos olhos. Sobrancelhas escuras também. Sorrimos. Uma minirreverência. Não exigimos mais nada como contato. Repentinamente ela começou a retardar o passo e, imitando minha companhia, fiz questão de assumir o mesmo ritmo. Estranhamo-nos. Tentou o inverso, aumentar a velocidade. Agressão à velocidade. Corri levemente. Um cara vinha nos observando um pouco atrás. Aproximei dela, inclinei um pouco a cabeça em sua direção. O suspeito atravessou a rua.
Nem deveria ser bandido, mas o cortejo em sua proteção fez com que ela sorrisse em minha direção. Caminhamos lado a lado sem muito, sem nada a dizer. A segurança era garantida apenas escutando batidas de salto alto nos paralelepípedos da calçada. O salto dela. Idem quanto à anônima. Não chegamos a cruzar uma mínima palavra. Sendo que meu lar estava perto. Declinei a fronte de novo, e ela correspondeu. Sorrimos. Quem sabe um dia nos voltaríamos a encontrar nas mesmas condições? Pedestres. Lembro-me agora que o rosto da moça disfarçava seus vinte e quatro anos. Maquiagem. Ainda tenho certeza que eram vinte e quatro anos. Cotovelos condenam, ah se condenam!