09.22.09

Limpar a casa

Enviado em Hanna-Barbera às 0:13 por cntrld

O número de leitores mais do que quaduplicou hoje. Vou aproveitar a boa vibe. Eu nunca limpei a casa. Rosa já. E Rosa adora trocar o sofá e a mesa de jantar de lugar. A cada primavera ela costuma excluir o costume de ser cômoda. Incomoda-se e incomoda os móveis a partir de sua comodidade de espírito. Eu aceito o desafio de imitá-la quanto às minhas relações. Muitas vezes os lados ouvinte-e-falante invertem-se e um ajuda o outro simultaneamente eu seus problemas. Há uma insatisfação que nos instiga e nos faz pensar como vivem os nossos próximos.

Rosa pega o pano, esfrega o chão, espuma a parede, enaltece a cor límpida do teto. A dona-de-casa exemplar se preocupa, se importa e confia na importância da residência, da mesma maneira que eu faço com o sujeito que consideor amigo. É uma espécie de fraternidade e de toque sensível às necessidades alheias. Se eu não me importo com as preferências daquele que está ao meu lado, eu naturalmente me afasto da pessoa. É tão simples tamanha coerência no projeto de vida no campo circular de contatos.

Aliás, não esqueçamos que Rosa é uma mulher que não deixa pó na superfície dos objetos. Varre-os para bem longe daqui. E tudo que se é velho ou empoeira, tenta-se inovar/renovar. Correr atrás, ligar, MSN ou scrap de Orkut. O que não vale é deixar de recordar da pessoa. Mas se o objeto vier a quebrar, ou coloque-se numa posição estratégica ou limpe-o. Colegas vão e vêm em  nossa vida, porém, o amigo é aquele que te ouve e que se faz ouvir, aquele que te ajuda para qualquer finalidade, aquele que toma a iniciativa para vir até você sem dar sermões, somente para construir o futuro bom, belo e bonito.

Cuide bem de quem lhe é boa companhia: confiança, cumplicidade e carinho.

09.04.09

Um rapaz que era hipócrita; e tornou-se incrível; e voltou a ser hipócrita

Enviado em Hanna-Barbera às 10:43 por cntrld

Se existe alguém mais falso, hipócrita e sem sentimentos que o mundo já pôde conhecer, o nome dessa pessoa provavelmente será o meu. Egoísta, antipático, calculista & sarcástico. Não tem como me definir melhor. A questão é que não é difícil eu sair de casa e, durante qualquer trajeto que eu o faça, pelo menos, três pessoas aleatoriamente não me reconheçam. Cruzam olhares de afeto, vem me cumprimentar em minha direção, beijam-me e desejam bênçãos e presentes no meu dia-a-dia. É, sou popular no bairro. Tudo por causa de favores.

Admito que há várias mulheres que me almejam como genros, já que sempre escutam versões exemplares sobre minha pessoa. Um computador doado, uma palavra amiga, um amor recuperado, uma inclusão social, uma bolsa de estudos, um emprego. Sempre o narrador-personagem é envolvido em alguma boa história de moral. E isso é um fardo, tenho uma reputação a zelar. Aliás, uma das boas. E não me canso de ajudar os outros, nem que seja preciso mentir. Isso mesmo, falsear para agradar os outros. Ah, e sou uma pessoa que desejo as melhores companhias do meu lado. Não quero uns quaisquer próximos à minha imagem, ao meu passado, quero ser lembrado por pessoas tão boas ou melhores do que eu. Não é difícil conquistar minha amizade, mas prefiro estar sempre ao lado de gente que admiro.

Percebi que eu era uma pessoa grande porque os outros me viam assim, e não gostaria de decepcioná-los. Um dia, conheci uma garota que necessitava de um auxílio afetivo. Seria um desafio interessante ajudá-la. Tentei propiciá-la a todos os momentos mais inimagináveis para que ela se sentisse única, exclusiva, enfim, especial. Lembra-se que eu minto? Só dizendo o quanto ela era especial, mesmo que eu desacreditasse piamente nessa característica dela, pra que a moça recuperasse sua autoestima. Foi o meu objetivo. O calculismo nas linhas de ação. Tudo programado para ela ser uma pessoa feliz, e, portanto, melhor. Assim, digna de minha admiração.

A magia e o lúdico em todo o processo foram bastante interessantes e inegáveis. Precisei suscitar toda uma estrutura social para que ela estivesse feliz. Porém, sempre tinha algo nela que a atormentava. A meta exigia que eu elaborasse situações ainda maiores para ela respirar amor. E a cada dia, percebia que ela se entregava um pouco mais a mim, abria o coração de forma que jamais tivera feito até com outro rapaz. Algo comum para mim (as pessoas aleatórias que me querem bem, lembra-se?), contudo, deduzo que tenha sido inédito para ela. Via-me como um cara incrível.

Você não sabe o que é se encher de heroísmo por vãs palavras de uma pessoa. É acima de orgulho. É compromisso com a pessoa de expectativas. Pela primeira vez toquei num coração pulsante. Logo deixei-me tomar por outrém. Altruísta, simpático, sensível & sarcático. Eu incrível. Graças à visão dela. Impulsionava-me a admiração dela. E era agradável poder lhe fazer bem. Exemplifico isso a partir dum eco. Creditei que a reciprocidade tornaria-se natural. Repetir o quanto ela é especial – mesmo que da boca pra fora -, faria com que ela realmente fosse especial. Que meu eco funcionasse, ela voltasse a ter autoestima, mais amadurecida nas relações. Ela especial.

Sendo que tinha coerência até mesmo em minhas mentiras para que ela fosse feliz, não estava me iludindo. Ela se tornou especial. Aí sim, passei a admirá-la. Porém, ela cometeu uma situação que não condizia com o ‘jeito especial’ que ela alcançara graduativamente. É como se ela tivesse recuado com todos meus, quiçá, nossos princípios e valores. E, caro leitor, você não sabe o que é entristecer-se. A magia findara. E como lhe disse, sou incapaz de acompanhar pessoas que não admiro. Logo o castelinho de areia tombou. Aprendizagem esquecida. A relação esfriou. Não que eu não goste dela, mas, não a admiro mais. Apenas a respeito como tenho o apreço idem por todas as pessoas comuns que me veem na rua, beijam-me e abençoam o meu dia.

Não tenho decepções, é uma decorrência racional o afastamento de nós. Questionei muito o que faria com que uma pessoa ao, enfim, sentir-se feliz, recuasse após. Talvez meu desafio que por pouco tempo foi atingido, era somente algo temporário. Talvez ela nunca tenha sido especial. E se meus dizeres não adiantaram, por que os dela adiantariam? Talvez eu nunca tenha sido incrível. Desisto, descanso. Voltei a ser eu mesmo, entretanto, com mais convicção de que posso errar. É, cessei de bancar o santinho, porque todo mundo sabe quem eu sou. E me aceitam da maneira que sou. Egoísta, antipático, calculista & sarcástico.

09.03.09

Lado a lado: Saga de Pedestres

Enviado em Hanna-Barbera tagged , , , , às 20:21 por cntrld

Saía do teatro. Dez e cinquenta da noite. Mal aguentara a carga horária de Montagem de Espetáculo mais a aula única de Gestão de Equipe. Cruzei a porta, a primeira esquina e avistei uma garota. Reparei no cotovelo, já falei que tenho uma tara por cotovelos? Adivinhei uns vinte e quatro anos. Cotovelo magro, pouco avermelhado e um início de rugas. É, vinte e quatro anos. Cabelos longos meio ondulados, meio grossos. Juba. Passos impacientes. Com as avenidas praticamente vazias e solitárias até minha residência – uns quinze minutos de trajeto -, acabei por aceitar a companhia dela.

Possíveis ladrões. Temo sofrer um assalto logo pela noite. Não moro num dos melhores lugares da cidade, perigo é o que não falta. Percorro metros e a alcanço. Olhamo-nos. Pele clara, cores escuras nos olhos. Sobrancelhas escuras também. Sorrimos. Uma minirreverência. Não exigimos mais nada como contato. Repentinamente ela começou a retardar o passo e, imitando minha companhia, fiz questão de assumir o mesmo ritmo. Estranhamo-nos. Tentou o inverso, aumentar a velocidade. Agressão à velocidade. Corri levemente. Um cara vinha nos observando um pouco atrás. Aproximei dela, inclinei um pouco a cabeça em sua direção. O suspeito atravessou a rua.

Nem deveria ser bandido, mas o cortejo em sua proteção fez com que ela sorrisse em minha direção. Caminhamos lado a lado sem muito, sem nada a dizer. A segurança era garantida apenas escutando batidas de salto alto nos paralelepípedos da calçada. O salto dela. Idem quanto à anônima. Não chegamos a cruzar uma mínima palavra. Sendo que meu lar estava perto. Declinei a fronte de novo, e ela correspondeu. Sorrimos. Quem sabe um dia nos voltaríamos a encontrar nas mesmas condições? Pedestres. Lembro-me agora que o rosto da moça disfarçava seus vinte e quatro anos. Maquiagem. Ainda tenho certeza que eram vinte e quatro anos. Cotovelos condenam, ah se condenam!