06.11.09
Comentários
Me perdoe, Pai, mas eu comentei.
Pecado leve.
Comentei e duvidei de Tua criação.
Duvidei de mim.
Confessei que só conseguia traduzir devaneios em palavras quando os ventos da mente, que tanto inspiram a maioria, não existiam.
Não tiro água de pedra, óbvio, mas quando a tormenta aparece, não vejo nada. Não ouço, não sinto, não falo…
A tormenta me consome.
Pecado médio.
O assobio agudo do frio cortante que faz meus póros fecharem domina meu vazio e me impede, me sufoca.
Seja vindo dela, de Ti, de mim ou de onde for.
Vejo as núvens e me jogo na correnteza, nem tento lutar…
Pecado grave.
Comentei, não com todos estes detalhes, Pai, mas falei.
Contei, subliminarmente, meu segredo mais precioso.
Não sei quem sou.
Hora sou eu, hora não sou. Esquizofrenia é coceira.
Comento de novo, Senhor e percebo…
Pequei novamente.
Eis a questão
Contar histórias é tarefa fácil, certo?
Um bom conto tem moral, questões, vivência e respostas. Algo com que o ouvinte se identifique, para que lembre-se da crônica como algo que lhe mostrou e lhe, de uma forma ou de outra, aconselhou.
Ouvir histórias é uma ótima maneira de reconhecer-se. Descobrir com qual personagem e quais situações cada um se traduz, se vê.
Não que precisemos de alguém, ou ainda mais de uma história inteira, para nos caracterizarmos… Fazemos isso sem pensar, desde sempre.
Criar, modificar, consolidar e reconhecer seu próprio perfil, sua própria personalidade. Sonho de consumo de vários.
Para esses que não sabem quem são, as histórias são boas. Auto-ajuda gratúita.
E para quem se conhece? Para quem sabe quem é, o que quer, quando quer…
Como fica o sujeito que lembra de cor e salteado suas características, suas qualidade e defeitos, sabe quando usa máscaras e quando as tira, se encontra facilmente no reflexo do espelho… Com qual conto essa pessoa se identifica?
Conhecer-se pode ser o verdadeiro sentido da vida. Quem já sabe tudo sobre si mesmo não tem mais o que viver, então?
O que fazer quando você descobre que não há nada dentro de si que pode lhe surpreender?
Nessa hora, contar histórias pode ser uma boa saída.