04.08.09

Transtorno

Enviado em Walt Disney tagged , às 18:48 por cntrld

Certo dia, num passeio ao supermercado para vislumbrar o capitalismo, encontrei algo que me desconcertou.

Vi uma mulher… Nada linda, diga-se de passagem, mas ela me intrigou.

Aos já aparentes cinquenta anos, com uma blusinha básica, um jeans básico, uma vida básica. Levava um carrinho e o enchia cada vez mais de compras.

Eu, como grande chato que sou, não pude deixar de reparar que nada no carrinho vinha em dois volumes e nada lá era realmente de necessidade básica, tirando um saco de feijão, um sal e uma garrafa de água.

Com um ar de transtornada, passeava, assim como eu, olhando cada prateleira, mas sem se preocupar com preço ou data de validade… Pegava o que interessava e jogava no carrinho, que já acumulava uma quantidade considerável de compras.

Achei uma coisa ou outra que me parecia gostosa, um pacote de bolachas, um suco de frutas e shoyu. Shoyu serve para tudo. Absolutamente tudo, mas falo disso em outro texto.

A nossa querida observada continuava sua busca frenética por mercadorias aleatórias, depositando tudo num carrinho já cheio.

Imaginei o preço que tudo aquilo daria… Faço isso, às vezes, é mania.

Manias, aliás, todos temos… Mas isso também é assunto para outra oportunidade.

Fui ao caixa pagar minha conta de quinze reais. Uma bolacha recheada, uma caixa de suco de frutas (Maracujá, para os mais curiosos) e shoyu.

Olhei para o caixa ao lado e me deparei, com felicidade, com a senhora transtornada, que observava, transtornada, para suas compras feitas com transtorno.

Viu, levantou uma ou outra coisa, jogou de lado no carrinho, procurando algo que fosse mais importante para ela… Achou.

Pegou o feijão, a garrafa de água…

Era sua vez de ser atendida e a caixa já a olhava com aquele ar vazio de cansaço, de quem trabalhou o dia todo, sentada, num emprego que não lhe trazia nada. “Tem o cartão da loja?”, perguntou.

Não houve resposta.

A mulher apenas pegou seu feijão e sua água, colocou à frente da atendente e deixou todo o resto, um carrinho com mais de quatrocentos reais em compras, de lado.

Assim, como se nada fosse.

Após quase duas horas de procura, de pegar produtos e colocar no carrinho, de andar e andar… Tudo isso pra deixar tudo, absolutamente tudo, de lado.

Fácil assim.

Pagou os cinco reais que já devia, ensacolou tudo e foi embora, sem nem olhar para trás.

Fiquei transtornado.

Raul era assim. Não vivia, sobrevivia.

Enviado em Hanna-Barbera tagged , , , às 1:51 por cntrld

Raul era assim. Largado, pés de havaianas. Camisa regata, bermuda da modinha e um boné que lhe tapava os ouvidos. Ele mal escutava e o pouco que escutava eram os hits do momento em um mp4 muito pequeno, menor que um pente pra cabelo. As músicas não lhe alimentavam. O mesmo refrão, o mesmo pancadão, os mesmos versos que levam o ouvinte de nenhum lugar a lugar nenhum. Idem aos filmes de ação, o único gênero que aprendeu a apreciar.

Raul era assim. Não tinha pai, não ligava pra mãe e mal agradecia o pão com rala/rara manteiga da sua manhã. Colocava o boné e conversava era com seu irmão mais novo, quatro anos, ainda estudante de nono ano. Mas o diálogo era algo pouco, em tom de briga e ameaça. Talvez tenha aprendido com seu patrão. Talvez. Pequenez no contato com amigos. Todos pararam de estudar, pela falta de condições. Carentes de faculdades caras.

Raul era assim. Levantou de manhã pra uma rotina fatigada. Colocou o boné. Abriu a porta, saiu. Abriu a porta, entrou.  Acenou com a cabeça, pegou a bike e o local de entrega. Ligou o mp4, montou na bike. Mão no guidão, outra no bolo. Já tava acostumado com o perigo, já tava acostumado com uma festa de aniversário precisando de seu objeto. Já tava acostumado com o pagamento e já tava acostumado com o pagamento em cheque, sendo obrigado a guardar no bolso e esperar uma folga no expediente pra ainda ter que trocar papel por cédulas no banco. Depois, voltaria para a casa e antes, veria na rua um ex-colega. Perguntaria o dia, perguntaria como tava a família. Em casa, tomaria um banho, veria a pior grade televisiva (jornal, não! é só desgraça! como filmes de ação por si só não trouxessem alienação) e, na medida do possível, ia a um bar. Bem, mas esse dia não seria assim.

Raul acordou. Levantou de manhã pra uma rotina fatigada. Colocou o boné. Abriu a porta, saiu. Abriu a porta, entrou.  Acenou com a cabeça, pegou a bike e o local de entrega. Ligou o mp4, montou na bike. Mão no guidão, outra no bolo. Não estava acostumado com o som. Buzina, carro desenfreado logo atrás. Raul não foi feito pra pensar (ouvir, ver, experimentar, dialogar, sentir o mínimo cultural e prazeroso), foi criado para justamente o oposto: pra não ouvir. Raul não ouviu. Boné vermelho no chão. Raul era assim.