04.27.09
Reflexo
Acordo já de cara com ele… Barba por fazer, uma ou outra espinha, cara de sono, hálito não sinto. Toda manhã é a mesma coisa. Levanta e vem me ver. Chega pertinho, às vezes, me olha nos olhos, me encosta na parede… Seu nome não sei.
Pede minha opinião sempre que vai sair… A roupa está boa, pode ir trabalhar despreocupado.
Tem dias que vem de terno, outros de blusão… Já vi de pijamas e pelado, então… Admito que não consigo resistir e dou uma olhada quando ele vira pra cá, pra lá, me mostra um pneuzinho e eu logo tento mentir.
Mentir é algo que não consigo, tento ser sincero ao máximo, sempre! Se me perguntar, direi que sim, a roupa está amassada. Sim, você fez mal sua barba. Sim, os grisalhos chegaram mais cedo e aqueles ainda castanhos que já caíram, não vão mais nascer.
Elogio também, quando merece. Afinal, numa relação como essa é preciso ver as coisas pelos dois lados.
Que bela escolha de roupas. O sapato está perfeito! Seus olhos são lindos!
Ele cuida de mim, também. Mexe comigo, me faz um carinho de vez em quando, procura o melhor lugar para mim.
Mas sou duro quando é necessário. Faço, não só ele, mas todos, enxergarem as verdades que residem dentro de si mesmos, querendo eles ou não.
Mostro como seus rostos estampam o aborrecimento. O sofrimento. O arrependimento. O amor. A tristeza. Tudo o que tentam esconder de mim e dos próprios olhos… Nenhum truque funciona comigo.
Não sou mágico também, só mostro o que vejo. Agüento caretas, presencio risos, tento acudir os choros, mas nunca pude secar uma única lágrima dele.
Em relação a isso me sinto um inútil.
Em compensação, é para mim que ele declama os ensaios de suas reuniões. Eu sou o único que lhe dou atenção quando nem ele parece acreditar em si mesmo. Mostro o quão forte ele realmente é, sem exageros.
Se eu fosse exagerado, estaria no parque de diversões.
Jamais vi meu rosto, ele está sempre coberto por um véu de brilhos infinitos. Não sei sorrir sozinho, chorar sozinho, me vestir sozinho…
Tem vezes que eu até me confundo com ele, por alguns segundos penso que posso ser humano.
Sei que, às vezes, ele também acha que sou.
Quando confia, só a mim, seus maiores segredos, seus medos, suas felicidades.
Acordo já de cara com ele, vendo as verdades.
Meu reflexo é o seu presente… Seu reflexo é o meu.
Obrigado por me polir de vez em quando, de me limpar e evitar os arranhões. Tenho de agradecer por tudo, afinal, sou um espelho sincero.
04.18.09
Atemporal
Não sei muito bem como, onde, quando ou porque, mas aconteceu. De repente, todos nós, humanos, fomos escravizados.
Um ditador alimentado por nós, nosso monstrinho, que foi crescendo, devagarzinho e, de mansinho, dominou todos os territórios.
Superou Hitler, Napoleão, Alexandre, o grande, Romanos, Gregos, Troianos, Turcos, Americanos…
Ele rege nossas regras, nossa língua, nossas vontades, nossas obrigações, meu dia e minha vida… Com uma tacada só, virou rei.
Eu já nasci escravo. Meus pais também. Estudando o passado, não se descobre quando chegou e olhando pro futuro só se percebe que não irá embora. Jamais.
Nós, humanos, que nos gabamos tanto por dominar o planeta, por ser a espécie mais bem sucedida, enganados, desavisados, pegos de surpresa por essa entidade, esse monarca poderoso.
Tudo deve esperá-lo e tudo só depende dele. De uma hora para a outra, me vi na forca desse grande dominador.
E, para fazer qualquer coisa, devo satisfações a ele.
Tanto é que já vou indo. Tinha apenas 47 segundos para fazer esta crônica, o tempo não espera ninguém.
O tempo não é controlado. O tempo manda e desmanda.
Quem sabe, faz a hora… Se ele permitir.
04.12.09
Renascer
Nascer de novo? Quem pode realmente dizer que nasceu novamente?
Quem? Todos nós.
Se você já repensou uma escolha, já olhou para trás, já percebeu uma mudança…
Se você já acordou diferente da forma como foi dormir…
Você já renasceu.
Todos renascemos a todo momento. Conhecemos coisas novas, visões diferentes, opiniões opostas e testamos nossos conceitos dia após dia.
Renascer é renovar-se, é transformar-se, é melhorar. Ou não.
Quem poderia, na verdade, dizer o que é bom ou ruim?
Quem, além de você próprio, tem a razão sobre si mesmo?
Sozinhos, todos podemos nos tornar pessoas novas. Traduções e releituras de um e de outro. Exemplos ambulantes.
Nascer, crescer, andar, ver, perceber, entender, criticar e mudar.
Explorar, transformar, transcender, compreender.
Parar, olhar, temer, pensar, saltar, convencer, demonstrar.
Encontrar, descobrir, traduzir e saber.
Renovar, renascer.
04.08.09
Transtorno
Certo dia, num passeio ao supermercado para vislumbrar o capitalismo, encontrei algo que me desconcertou.
Vi uma mulher… Nada linda, diga-se de passagem, mas ela me intrigou.
Aos já aparentes cinquenta anos, com uma blusinha básica, um jeans básico, uma vida básica. Levava um carrinho e o enchia cada vez mais de compras.
Eu, como grande chato que sou, não pude deixar de reparar que nada no carrinho vinha em dois volumes e nada lá era realmente de necessidade básica, tirando um saco de feijão, um sal e uma garrafa de água.
Com um ar de transtornada, passeava, assim como eu, olhando cada prateleira, mas sem se preocupar com preço ou data de validade… Pegava o que interessava e jogava no carrinho, que já acumulava uma quantidade considerável de compras.
Achei uma coisa ou outra que me parecia gostosa, um pacote de bolachas, um suco de frutas e shoyu. Shoyu serve para tudo. Absolutamente tudo, mas falo disso em outro texto.
A nossa querida observada continuava sua busca frenética por mercadorias aleatórias, depositando tudo num carrinho já cheio.
Imaginei o preço que tudo aquilo daria… Faço isso, às vezes, é mania.
Manias, aliás, todos temos… Mas isso também é assunto para outra oportunidade.
Fui ao caixa pagar minha conta de quinze reais. Uma bolacha recheada, uma caixa de suco de frutas (Maracujá, para os mais curiosos) e shoyu.
Olhei para o caixa ao lado e me deparei, com felicidade, com a senhora transtornada, que observava, transtornada, para suas compras feitas com transtorno.
Viu, levantou uma ou outra coisa, jogou de lado no carrinho, procurando algo que fosse mais importante para ela… Achou.
Pegou o feijão, a garrafa de água…
Era sua vez de ser atendida e a caixa já a olhava com aquele ar vazio de cansaço, de quem trabalhou o dia todo, sentada, num emprego que não lhe trazia nada. “Tem o cartão da loja?”, perguntou.
Não houve resposta.
A mulher apenas pegou seu feijão e sua água, colocou à frente da atendente e deixou todo o resto, um carrinho com mais de quatrocentos reais em compras, de lado.
Assim, como se nada fosse.
Após quase duas horas de procura, de pegar produtos e colocar no carrinho, de andar e andar… Tudo isso pra deixar tudo, absolutamente tudo, de lado.
Fácil assim.
Pagou os cinco reais que já devia, ensacolou tudo e foi embora, sem nem olhar para trás.
Fiquei transtornado.